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MITHRAS
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MOVIMENTO PERPÉTUO

224 - Movimento Perpétuo

Comentários


Parabéns por esta magnífica obra, Alberto.
Motivado pela grande beleza desta tua peça, e pelos seus diferentes elementos cénicos introduzidos na boca de cena, sinto-me intelectualmente convidado a fazer uma ligeira incursão pessoal por este tema do movimento perpétuo que é sem dúvida, um tema sempre muito apelativo.
Quando se entra neste quadro, podemos pressentir o movimento perpétuo que se respira da grande relação dialética do eterno retorno, como um ciclo de permanente alternância de forças se complementam na sua diversidade. Mas este quadro tem elementos que ultrapassam este simples binário energético, e que suscitam outras divagações: Pode parecer à primeira vista, haver algum antagonismo filosófico entre algumas formas artificiais inventadas pelo ser humano, e o lado do Universo que obriga todas as formas a regerem-se pelo mundo das curvaturas, começando pela parte mais ínfima da matéria: o átomo, que supostamente assume uma configuração arredondada, senão mesmo esférica, passando pelos planetas até acabar na forma centrífuga da expansão dos universos, sob a forma de espirais que evoluem pelo Cosmos: Cosmos, para o qual, o claro e o escuro, o cima e o baixo, o Yin e o Yang, o bem e o mal, não existem já que são escalas de perceção unicamente criadas pelo ser humano.
Sendo o Universo um objeto curvo, as linhas retas não serão possíveis senão no campo teórico, já que, sendo o átomo o elemento primordial da matéria, e tendo ele uma estrutura curva, não é possível construir a partir dele, qualquer reta perfeita já que a sua essência é divergente, e não pode alterar a sua natureza curva. Assim, a introdução de elementos retos e quadrangulares nesta obra, sugere-me uma abordagem mais ampla do conceito de movimento:
O quadrado como símbolo último, do sistema de movimento e evolução universais.
O quadrado é, sob o ponto de vista formal, uma forma estática; talvez a forma mais estática que conseguimos produzir, e por isso poderia ser considerado a antítese do movimento e do “mundo natural”, assumindo pela sua estrutura geométrica, a condição de máximo elemento de artificialidade. Contudo, se considerarmos esta forma como um produto da evolução da inteligência do universo canalizada através do ser humano, poderemos considerar o quadrado como o mais perfeito derivado do perpétuo movimento evolutivo do espírito, esse vector energético que é o pensamento, que possibilita a criação de razões matemáticas abstratas, transformando-as em expressões numéricas ou numa linha reta, ou num segmento de reta, e, configurando esse segmento de reta com outros, levar à criação de formas geométricas absolutamente “artificiais “como o quadrado, criando assim para o mundo, novas características imateriais. Porém, toda a artificialidade é produto intrinsecamente natural, uma vez que é ela própria, um atributo genuíno da própria natureza, revelado e exercido pelo ser humano, na sua demanda existencial.
Poderíamos então com facilidade, chegar à conclusão de que o quadrado poderá ser encarado como a expressão última do movimento, não no sentido meramente físico, como produto da relação espaço/tempo/matéria, mas de contextualizar esse movimento numa perspectiva de evolução e transmutação do espírito que vai muito para além do movimento físico da matéria e mergulha na profunda e complexa plasticidade e movimento incessante do espírito humano, que faz rodopiar universos na sua compulsiva busca e desvendamento dos mistérios do mundo.


Carlos Almeida